domingo, 24 de outubro de 2010

MÃES QUE TRABALHAM ,E NÃO VEEM SEUS FILHOS CRESÇER

divididas entre a profissão e os filhos, estas mulheres vivem numa roda-viva. E sentem-se culpadas. Umas vão encontrando uma saída no trabalho a meio-tempo, outras vão inventando ligações à distância.Divi Inês Martins, de 32 anos, trabalha na área de marketing em regime de 75 por cento. A redução do horário de trabalho para seis horas diárias foi a forma que arranjou, há cerca de 12 meses, para estar mais tempo com o filho de quatro anos.
“Apesar do António estar bem cuidado e acarinhado pela avó, pois está sempre disponível para o neto, começava a sentir que a minha vida profissional preenchia totalmente os meus dias. Não tinha tempo para ele nem para mim”, observa. Inês nunca chegava a casa antes das 20 horas, altura em que ia buscar o filho a casa da mãe e, a um ritmo alucinante, dava início às tarefas habituais: dar-lhe o banho e o jantar e, por fim, deitá-lo. “A maior parte das vezes o António queria ficar com a avó, pois certamente sentia que podia fazer tudo isto sem pressas, numa atmosfera mais tranquila”, explica. E acrescenta: “Desde que pedi a redução do horário em 25 por cento ganhei duas horas diárias e te-nho tempo para fazer tudo com calma, para brincar e passear com ele. E ainda tenho tempo para mim. Na empresa faço o mesmo que fazia, só que em muito menos tempo. Mas vale a pena, pois sinto o António mais tranquilo. Antes, era muito irrequieto, chegando mesmo a ser conflituoso com as outras crianças.”
As mulheres portuguesas são as que mais trabalham dentro e fora de casa e também as que ganham menos. O trabalho não remunerado passa maioritariamente por elas, ainda que tenham uma profissão remunerada no exterior e uma carga horária idêntica à do companheiro. Queixam-se de falta de tempo para a família e sobretudo para os filhos, algumas assumem uma culpa corrosiva face a este estado de coisas. Mas seria diferente, se decidissem declinar a vida profissional para abraçar exclusivamente as suas crianças?
Uma mãe que trabalha é culpada, mas uma que não trabalha também, porque ambas são mães e mulheres. É o que garante a psicóloga e psicoterapeuta francesa Sylviane Giampino. “A primeira encontrou uma boa razão para se sentir culpada relativamente aos filhos: a sua ausência. Ausência devida ao seu trabalho no exterior, e à sua falta de disponibilidade em casa, devido ao trabalho doméstico e às preocupações profissionais. A segunda está entregue a uma culpabilidade ambulante; sente-se mal consigo pela falta de paciência para os filhos, ou ainda por protegê--los demais em detrimento da sua autonomia”, afirma no seu livro As Mães que Trabalham São Culpadas? (Ambar).
“A maternidade é feita de tal maneira que uma mulher que a assume penetra num universo mágico, comovente, que a fragiliza e a transforma, que a inquieta e a enleva. De dúvidas em esperanças e de lutos em alegrias, a criança coloca-a num cume exposto a tudo, entre o vale das delícias e o vale das angústias. Ter filhos e tratar deles é, para a maioria das mulheres, uma sorte. Raras são actualmente as jovens que a tal renunciariam por razões profissionais ou ideais políticos.”

O que é necessário é ter uma noção das prioridades, fazendo apenas o essencial e deixando o acessório para melhores dias.

É muito habitual desenvolver-se um sentimento de culpa nas mães que têm uma profissão fora de casa. Segundo Mário Cordeiro, este não tem razão de existir nem adianta em nada. “O problema é que muitas têm uma necessidade enorme de se afirmarem simultaneamente como mães, profissionais, donas de casa, mulheres e amantes perfeitas”, observa. “O que eu acho um perfeito disparate. A imperfeição e o erro fazem parte da condição humana. O que é necessário é ter uma noção das prioridades, fazendo apenas o essencial e deixando o acessório para melhores dias. E, claro, tentar tomar as melhores opções de acordo com as possibilidades, os contextos e as circunstâncias, mesmo que depois se veja que não foi o melhor caminho. Mas o aperfeiçoamento é isso mesmo.”

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